Levando em consideração o que já analisamos sobre a arte moderna, tanto em suas correntes figurativas e abstratas podemos afirmar que a arte moderna foi criada para servir como instrumento da Revolução no combate à doutrina católica na estética.
Além das provas já apresentadas sobre as obras artísticas produzidas por essas correntes, temos muitos testemunhos dos partidários da arte moderna. Eles começam atacando duramente a “tirania artística” dos medievais, que chamam de “velha práxis dogmática” destruída pelo Renascimento. Em seguida, revelam um claro caráter anticatólico nas múltiplas etapas dessa revolução estética.
‘Queremos satisfazer nossos instintos’
Osório Cesar, por exemplo, autor do século XX e defensor da arte moderna no Brasil, faz essa avaliação de um ramo do movimento, centrada na religião: “O Futurismo nasceu em uma época de dinamismo fascinante. Ninguém mais acredita em dogmas. A fé cristã desapareceu e sua escravidão não nos atormenta mais. A arte dos mestres também não nos cativa mais. Não nos satisfaz.”

A obra A Cidade se Levanta, de Boccioni, expressa uma revolta contra o passado |
“A literatura clássica também nos incomoda muito. Queremos satisfazer nossos instintos. Não queremos compreender. Ansiamos por novas sensações. E por quê? Porque somos constantemente movidos por nossas influências ancestrais primordiais; um homem primitivo milenar dorme e sonha dentro de cada um de nós.
Vimos nossos primeiros desejos, que na infância foram reprimidos por preconceitos morais, passarem para o subconsciente e agora serem expressos pelos artistas de vanguarda.” (1)
O poeta português Fernando Pessoa (1885-1935), ao definir sua posição religiosa, revela o fundamento da arte moderna: “[Sou] um cristão gnóstico e, portanto, completamente oposto a todas as igrejas organizadas, sobretudo à Igreja de Roma. Sou fiel… à tradição secreta do cristianismo, que está intimamente ligada à tradição secreta de Israel (a sagrada Cabala) e ao núcleo oculto da Maçonaria.” (2)
Por razões semelhantes, encontramos “gurus” do ocultismo como Max Jacob, Apollinaire, Madame Blavatsky, Annie Besant, Leadbeater, etc., por trás das principais correntes da arte moderna.
O progressismo foi apoiado por líderes da arte moderna

O padre progressista Romano Guardini abandonou as vestes clericais |
Interesses gnósticos semelhantes levaram Oswaldo de Andrade, um dos fundadores da arte moderna brasileira, a confessar sua simpatia pelas correntes litúrgicas de esquerda que haviam se infiltrado na Igreja. Ele afirmou que o catolicismo estava se ajustando, “retornando, por assim dizer, à sua posição pró-socialista.” O que mais lhe interessa, no movimento de renovação do catolicismo, porém, é a figura do padre e erudito progressista alemão Romano Guardini. De Andrade afirma:
“Este líder atribui um peso enorme ao culto, aos ritos e à liturgia, e isso me parece de importância capital, visto que ele busca destruir o núcleo reacionário do clericalismo moralizante. Em O Espírito da Liturgia, Guardini chega ao ponto de colocar o culto acima da Ética. Ao tratar da vocação do homem para crer e adorar, Romano Guardini resolve questões que antes faziam do pecado um problema de consciência para a maioria dos crentes. Enquanto Barth nos ordena a crer, Guardini nos convida a adorar. Para mim, esses são os únicos caminhos que podemos encontrar hoje para uma renovação do cristianismo dentro do reino da utopia e do sonho, não fora da esfera social.” (3)
O ocultismo inspira ramos da arte moderna
Por trás da arte moderna, há um grupo que controla os fios de todos os artistas de marionetes, tanto aqueles iniciados em seus segredos obscuros quanto os ingênuos arrastados por esse jogo de manipulação insano.
Deixamos de lado aqui o Expressionismo e outras correntes artísticas do século XIX para analisar os principais ramos da chamada vanguarda da arte moderna no início do século XX. Juntamente com o retorno ao Primitivismo, a arte mágica dos curandeiros africanos e da Oceania, surgiu o Cubismo.
Dele derivaram duas correntes: por um lado, o Futurismo, o Raionismo e o Abstracionismo; por outro, o Dadaísmo e o Surrealismo. Houve também variantes menos importantes do Cubismo, como o Tubularismo de Fernand Léger, com suas figuras de carne metálica que ressaltavam seu fascínio pela máquina, e o Purismo de Le Corbusier, com sua ênfase na forma básica e essencial dos objetos.
Como vimos em artigos anteriores (aqui e aqui), a arte moderna não busca retratar a beleza, mas sim expressar e transmitir o ideal socialista de vida. Foi o que Picasso afirmou: “Não sei por que as pessoas falam de beleza: ninguém pede a um farmacêutico que crie um produto bonito.”

Obra primitiva dos Prazeres intitulada Moendas foi premiada
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Todas essas correntes adotam como paradigmas a arte de loucos, selvagens e médiuns, e as improvisações de palhaços e crianças. Isso explica como um prêmio na Primeira Bienal de São Paulo (1951) foi concedido a Hector dos Prazeres, um completo analfabeto em artes plásticas.
Em muitos dos artistas de vanguarda, encontramos a influência da magia e do ocultismo. Mostramos que Kandinsky produziu suas obras de arte em estado de transe. Herbert Read afirma que Picasso fez o mesmo com muitas de suas pinturas. (4)
Klee foi inspirado pelas obras artísticas do chamado homem primitivo (que ele confundia com os selvagens da Polinésia e das Américas), bem como pelas alucinações de loucos. Ele costumava pintar em estado de hipnose. Chirico pintou suas paisagens fantasmagóricas com os olhos fechados, também em estado de transe. Já descrevemos as ligações teosóficas de um dos líderes do Abstracionismo, o pintor holandês Piet Mondrian.
Esses fatos por si só deveriam levantar suspeitas nos católicos sobre essas correntes artísticas do início da era moderna, visto que demonstram claramente a oposição radical dos princípios básicos da arte moderna à doutrina católica.
Não obstante, apresentaremos mais exemplos aos nossos leitores.
Por que os evolucionistas querem retornar ao homem das cavernas?
O automatismo surrealista é uma técnica generalizada, sem autocensura consciente, que busca retornar aos instintos do homem primitivo.
À primeira vista, parece contradizer a teoria da evolução. De fato, os partidários dessa corrente se apresentam como artistas de vanguarda, defensores de uma evolução perpétua da humanidade, que desejam romper todos os laços com o passado. Chegam ao ponto de propor a queima de todos os museus. Esses mesmos artistas supermodernos adotam como fundamento para sua arte um retorno ao estado mental do selvagem, do homem das cavernas primitivo. Como explicar essa contradição?

Um esboço automático de André Masson |
Osório César nos diz que o objetivo é “libertar” a humanidade do cristianismo e, seguindo a versão gnóstica da Queda, encorajar o mundo a retornar à antiga Gnose (conhecimento), ou ciência perdida, que recuou quando matéria e espírito se uniram.
Esse panteísmo gnóstico despreza intensamente o que chama de “moralismo” e “ascetismo,” as partes da doutrina católica voltadas para domesticar nossa natureza má e submetê-la ao espírito. Qualquer noção de culpa é estranha ao sistema gnóstico. Para ele, a noção de mal não pode atingir o nível pessoal. O mal supostamente é o resultado de um cataclismo cósmico que fez com que o espírito fosse aprisionado e escravizado pela matéria. Assim, quanto mais o homem desce ao mundo de seus sentidos brutais, mais se aproxima desse desastre inicial e mais livre se torna da corrupção da matéria. Se ele transcender a matéria nesse processo inverso e entrar nesse estágio puro inicial da ideia, estará completamente libertado.
Portanto, o abstracionismo visa criar uma representação artística dessa ideia inicial e pura presente no subconsciente do homem. Isso ajuda a explicar por que os gnósticos modernos observam tanto o retorno ao homem primitivo.
A doutrina e a história católicas se opõem à gnose
Segundo o ensinamento católico, corroborado pela ciência verdadeira, não existe um homem primitivo ou um estágio inicial de selvageria e barbárie. Deus criou o homem à sua imagem e semelhança, em um estado de integridade e com a inteligência mais brilhante possível. O primeiro homem vivia em um estado de justiça original que concedia à sua alma o controle completo sobre o seu corpo.

Descobertas arqueológicas revelam arte antiga refinada, acima, de uma escultura assíria
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Portanto, o homem não surgiu guiado por seus instintos e desprovido de consciência moral, mas sim dirigido pelos dons do conhecimento e da sabedoria. Isso não é apenas uma questão de fé. Os testemunhos e as descobertas arqueológicas de civilizações antigas confirmam que não existiu um homem das cavernas. Pelo contrário, as instituições e os monumentos dos povos antigos são expressões de um alto nível de inteligência e cultura.
Os povos primitivos contemporâneos, longe de representarem o homem primordial original, representam apenas as ruínas psicológicas do que o homem já foi. Nos índios Bororos do Mato Grosso (Brasil), por exemplo, vemos que a estrutura lógica de sua língua permaneceu como expressão da cultura elevada que outrora possuíam e depois abandonaram. Hoje, existem apenas como os restos dilapidados de uma cultura muito mais avançada.
Apenas alguns exemplos das culturas pré-diluvianas chegaram até nós. Mas esses vestígios não corroboram a tese do fetichismo e do primitivismo defendida pelos mestres da arte moderna. Longe de ser guiado por seus instintos, o homem antigo demonstra um grande desenvolvimento intelectual. Por isso Hipócrates disse: “As artes eram originalmente graças concedidas aos homens pelos deuses.”
A arte moderna, outra faceta da Revolução
Em resumo, a arte moderna não aceita os ensinamentos da Igreja Católica, busca um retorno ao paganismo, despreza o dogma do Pecado Original e, portanto, não admite que o homem possa ser salvo pela prática dos Mandamentos da Lei de Deus. Ela não aceita os homens como descendentes imperfeitos de Adão e herdeiros de sua culpa, mas quer que os homens desobedeçam ao seu Criador e finge alcançar um conhecimento paradisíaco por meios mágicos e ocultos.
Inimigos do plano divino, membros do corpo místico do demônio - que é o oposto do Corpo Místico de Cristo –, os mentores dessa subversão satânica inverteram os códigos de pureza e decadência. O psicanalista Neves Manta afirma: “Quem imagina que a mentalidade da vanguarda é decadente revela a grande incompreensão possível. O homem de vanguarda, como a criança e o esquizofrênico, é o indivíduo que retorna à pureza pré-histórica, renunciando aos estúpidos preconceitos modernos, reagindo contra eles por meio de símbolos.” (5)
A perda da noção de pecado é um dos piores flagelos do mundo moderno, segundo o ensinamento de Pio XII. A arte moderna, como sistema, visa precisamente isso: a destruição da própria noção de pecado.
Não devemos perder de vista o conjunto da Revolução em suas diversas frentes de ataque contra a civilização cristã e a Igreja Católica. No campo das artes visuais, deparamo-nos com uma faceta desse grande conjunto que, em seus laboratórios secretos, com sua multidão de teólogos, filósofos, cientistas, artistas, políticos, sociólogos, bruxas e feiticeiros, prepara o advento do reino do demônio.
1. Osorio Cesar, A arte dos loucos e dos artistas de vanguarda [The Art of madmen and vanguard artists], 1954.
2. Gaspar Simões, Vida e obra de Fernando Pessoa, 2nd ed., p. 234.
3. Oswaldo de Andrade, “A Marcha das Utopias,” no Estado de São Paulo, 27 de setembro de 1953.
4. Herbert Read, no Journal of the Royal Society of Arts, 18 de janeiro de 1946.
5. Neves Manta, Prefácio a A arte dos loucos e dos artistas de vanguarda.
“Dada a atualidade do tema deste artigo (18 de janeiro de 2012), TIA do Brasil resolveu republicá-lo - mesmo se alguns dados são antigos - para benefício de nossos leitores.”
Publicado em Catolicismo n. 38, fevereiro de 1954 Traduzido e adaptado pela secretaria da TIA Postado em 19 de outubro de 2026

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