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A cabala da arte moderna

Cunha Alvarenga

Em artigo anterior, mencionei a "coincidência" de as correntes da arte moderna terem surgido simultaneamente à ascensão da magia e das "ciências" ocultas no século XIX. A ocorrência aparentemente esporádica de temas cabalísticos em obras literárias tornou-se quase sistemática com a aproximação do Iluminismo, como nas obras de Milton no século XVII ou nas de Goethe no século XVIII.

O Romantismo e o Simbolismo do século XIX, por exemplo, desenvolveram-se simultaneamente à crescente influência da magia e do ocultismo. Esses movimentos não foram apenas fruto da inclinação esotérica individual de um Victor Hugo na França, um Guerra Junqueiro em Portugal ou um Álvares de Azevedo no Brasil. Nem foram simplesmente consequência das divagações ocultistas de um Charles Baudelaire, um Eugenio de Castro ou um Cruz e Souza. Representaram, antes, todo um movimento artístico e literário derivado do novo impulso dado às seitas gnósticas.

Diversas correntes da arte moderna compartilham com o socialismo o mesmo objetivo político de uma sociedade sem classes e o ideal utópico de implantar um reino milenar na Terra. Esse fim comum indica uma base doutrinária e um culto em comum, que denominaram Panteísmo Transcendental. Esse suposto credo de magia e ocultismo inspirou um sincretismo religioso que serve de catalisador para o socialismo. Como sabemos, o socialismo — ou panteísmo social — sempre sucede o panteísmo religioso, que está ligado ao pensamento gnóstico que contaminou quase todas as heresias desde a Era Apostólica.

Gaugin observed pagan rituals in Polynesia

Gauguin explorou a magia e os rituais pagãos nas ilhas da Polinésia
Enquanto para um católico a arte está ligada a um ideal de elevação e beleza, para um partidário dessas correntes modernas, a arte representa algo diferente. A habilidade e o talento artísticos tornam-se meios para disseminar mistérios obscuros e impor domínio social.

Foi seu envolvimento com magia e falso misticismo que levou Gauguin às ilhas da Polinésia Francesa, no Pacífico Sul, para aprender rituais e feitiçaria nativos. Influências herméticas semelhantes geraram o nascimento do movimento da Irmandade Pré-Rafaelita na Inglaterra, cujo líder foi o poeta e pintor Dante Gabriel Rossetti. Suas obras eram fortemente imbuídas do ocultismo.

Cubismo, Futurismo, Expressionismo, Dadaísmo, Suprematismo, Surrealismo, Orfismo, Abstracionismo, Concretismo – esses são alguns dos diferentes nomes assumidos por essa cabala artística no século XX.

Um esforço para dominar os outros

Podemos compreender melhor essa subversão na arte mostrando como o poeta português Fernando Pessoa expôs seus princípios fundamentais. Em sua obra Notas para uma Estética Não Aristotélica, ele buscou uma estética baseada na força e na energia, não na verdade e na beleza. Ele afirma que, como a arte é um fenômeno social, ela “é acima de tudo um esforço para dominar os outros.”

Aleister Crowley, Fernando Pessoa

Fernando Pessoa, à direita, conheceu o seu mentor Aleister Crowley em Lisboa em 1930
Pessoa explica que, enquanto a arte aristotélica influencia convencendo, a arte moderna domina subjugando. Ele continua: “A primeira, a arte aristotélica, baseia-se no conceito de beleza porque quer fazer o que agrada; baseia-se na inteligência porque quer fazer o que é compreensível. A segunda, a arte moderna, baseia-se no sentimento, que é específico e pessoal. É através desse sentimento pessoal que dominamos; caso contrário, dominar seria perder a própria personalidade ou, em outras palavras, ser dominado.”

Mesmo antes dos surrealistas, Fernando Pessoa já compunha sua poesia em estado de transe. Tornou-se médium e aderiu ao Espiritismo. Foi iniciado na teosofia por Anne Besant e Madame Blavatsky e manteve correspondência com o famoso bruxo Aleister Crowley. (1) Ele afirmava ter descoberto na “santa” cabala “a fonte de toda a iluminação e de toda a filosofia esotérica.”

Segundo ele, “Gnosticismo, Neoplatonismo, Teosofia, Espiritismo, Ocultismo – tudo leva à mesma conclusão: o sentido do mundo, a explicação da vida e da própria morte pertencem àqueles iniciados nos mistérios do Oculto.” (2)

Essas noções de força e de dominação social forjam a aliança entre o Futurismo e o Fascismo, ou o Socialismo de direita. Como aliado natural, Mussolini deu a Marinetti, o iniciador italiano do movimento Futurista, o título de “São João Batista do Fascismo.”

Métodos da arte moderna

O que devemos dizer sobre os métodos da arte moderna? Sobre este tema, apresento a opinião do estudioso francês Maurice Nadeau em sua obra A História do Surrealismo. Nadeau afirma:

“Os métodos do Surrealismo constituem uma verdadeira revolução. Primeiro, o Surrealismo nega a poesia ao tentar superá-la. Na poesia, a ordem é eliminada para dar espaço ao texto espontâneo, aos ditames puros e simples do inconsciente, à narrativa do sonho. Não há preocupação artística com a busca da beleza. Dá-se importância ao que é vil e indigno.”

Jackson Pollock's psychotic art

Uma pintura psicotransmitida de Jackson Pollock
“O espírito do poeta é o que é: caos onde sensações, sentimentos, desejos e esperanças se entrelaçam e se expressam no tumulto – incoerência através da palavra falada e da pena. … Por meio da destruição radical, os poetas surrealistas construíram 'novos valores' na atmosfera [caótica] da criação do mundo.

“Essa revolução na poesia tornou-se possível por meio de uma revolução interior no homem e em suas relações com o mundo. … O Marquês de Sade é a figura central em seu panteão. [Sade foi um poeta e libertino francês que se entregou às mais corruptas crueldades sexuais com outros; de seu nome surgiu o termo sadismo.] O surrealismo quer destruir todo o legado transmitido pela família, pela moral e pela religião. O poeta comunista francês Louis Aragon disse: ‘Leis, moral e estética foram criadas para impor respeito aos fracos. É necessário libertar-se da fraqueza. Nossos heróis são Viollette Nozière, que assassinou seus pais, o criminoso anônimo, o homem deliberadamente sacrílego’ (Les Aventures de Télémaque).

“A antiga oposição tradicional entre o burguês e o artista foi substituída por um antagonismo violento entre o revolucionário e o dono, o escravo e o patrão. Enquanto os surrealistas começaram com um idealismo místico da predominância do espírito sobre a matéria, terminaram no materialismo revolucionário.” (3)

Essas palavras de Nadeau sobre o Surrealismo também poderiam ser aplicadas a outras correntes da arte moderna e aos movimentos gnósticos em nossa história contemporânea.

Inspiração demoníaca

O que é essa pintura automática, esse abandono aos instintos do inconsciente, essa busca pelo monstruoso, pelo negativo e pelo infranatural?

The surrealist painting 'Demonic Despair'

A pintura surrealista intitulada Desespero Demoníaco revela a inspiração por trás do movimento
O que é essa entrega de si mesmo às alucinações e à loucura que levou muitos desses 'gênios' ao suicídio? O que é essa degradação que imita a barbárie do selvagem, a imaginação imatura da criança ou as improvisações grotescas do palhaço?

Tudo isso parece não ser nada mais do que sintomas da entrega do próprio livre-arbítrio ao Diabo…

Adentrando as profundezas dessa cabala artística, o estudioso austríaco de arte moderna Hans Seldmayr concorda: “Afirmo que em nenhum outro período da história da humanidade a arte demoníaca dominou como em nossos dias, a ponto de a própria imagem do homem ter sido demonizada.” (4)

Creio que essa referência à arte moderna, aplicada às suas diferentes escolas, deva servir como critério para nos auxiliar na avaliação dessas obras sempre que as encontrarmos.
1. Aleister Crowley foi chamado de “o inglês mais imundo e perverso” por um juiz britânico. Questionado sobre quem ele era, respondeu: “Antes de Hitler existir, eu sou.” Este satanista, que morreu em 2 de dezembro de 1947, fundou duas revistas em Berlim - Gnosis e Lucifer - entre 1920 e 1922. Em seu funeral, seus discípulos cantaram sobre seu túmulo o Hino a Pan composto pelo próprio Crowley, o Hino a Satã de Carducci, e a Coleção para uma Missa Gnóstica, também composta por Crowley para seu templo satânico em Londres. Fernando Pessoa traduziu o Hino a Pan para o português. Cf. Alois Mager, Satan de nos jours.
2. Veja os capítulos “Iniciação Esotérica” e “A Sagrada Cabala” em J. Gaspar Simões, Vida e Obra de Fernando Pessoa, 2 vols. 3. Maurice Nadeau, Histoire du Surréalism 4. Hans Seldmayr, Art du demoniaque et demonie de l’art. Veja também Filosofia dell’arte publicada pelo Centro Internazionale di Studi Umanistici. Sobre a origem gnóstica da música moderna, ver Roman Vlad, Demonicità e dodecafonia.
“Dada a atualidade do tema deste artigo (8 de agosto de 2011), TIA do Brasil resolveu republicá-lo - mesmo se alguns dados são antigos - para benefício de nossos leitores.”

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Publicado em Catolicismo n. 34, outubro de 1953
Traduzido e adaptado pela secretaria da TIA
Postado em 7 de setembro de 2026

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