Um artigo do Cardeal Celso Constantini, secretário da Congregação para a Propagação da Fé, publicado no L’Osservatore Romano (11 de outubro de 1953, página 5), confirma muito do que escrevemos sobre arte moderna [aqui, aqui, aqui e aqui.]
Ora, até aqui nos ocupamos não apenas da arte sacra, mas da arte em seu aspecto geral, e demonstramos que, em si mesma, certa arte moderna traz uma mensagem demoníaca que a torna inaceitável em qualquer espécie de ambiente e para qualquer espécie de público. E são essas razões de ordem geral que fundamentam sua incompatibilidade com a genuína arte sacra. É evidente que também na arte há uma hierarquia de valores e que tanto maior será a abominarão dessas deturpações quanto mais elevado for o tema tratado.

O Cristo comunista de Orozco reduz a ruínas a religião e a civilização... |
O Cardeal Constantini concorda: “Alguns artistas, seguindo a moda hodierna de um falso primitivismo, ou de uma selvagem tendência à deformação, e de um abstratismo metafísico, pretenderam entrar em nossas igrejas com figurações que ofendem o senso cristão dos fiéis. [...] Os Santos Pontífices Pio XI e Pio XII emitiram solenes condenações contra tais tendências.
“De fato, Pio XI afirmou: ‘Tantas obras de arte, indiscutivelmente e para sempre belas [...] trazem-nos ao pensamento (quase por irresistível força de contraste) certas outras assim chamadas obras de arte sacra, que não fazem pensar no sagrado e torná-lo presente senão porque o desfiguram até a caricatura, até uma verdadeira e própria profanação.’
“Pio XII também foi peremptório a este respeito: ‘Não podemos, entretanto, por dever de Nossa consciência, deixar de deplorar e reprovar aquelas imagens e formas por alguns recentemente introduzidas, que parecem ser depravações e deformações da verdadeira arte, e que por vezes repugnam abertamente ao decoro, à modéstia e à piedade cristã, e ofendem miseravelmente o genuíno sentimento religioso; elas devem absolutamente se manter afastadas e se pôr fora das nossas igrejas, como em geral tudo aquilo que não se acha em harmonia com a santidade do lugar.’”
Como se vê, as condenações da Igreja atingem essas próprias deformações e depravações da verdadeira arte, que devem ser combatidas não somente em nome desta última, mas também e sobretudo em nome da Fé. Citando carta recebida do Cardeal Jorge Grente, Bispo de Mans, escreve Mons. Celso Costantini:
“Nós, co-irmãos no sacerdócio, nós, guardiães das vivas tradições da arte cristã, devíamos nos insurgir contra esses desvios não somente em nome da arte, mas também e sobretudo em nome da Fé. Hoje em dia se consuma um atentado pior que a heresia iconoclasta, porque se deita o machado sobre as raízes do Cristianismo. O comunismo combate radicalmente a concepção espiritual da vida, combate-a até no campo da arte sacra. Artistas e estudiosos escrevem-me denunciando essa nova ofensiva anticristã. Picasso é um comunista, e, segundo as graves palavras do poeta Claudel, ultraja sacrílegamente a figura humana, feita à imagem e semelhança de Deus
: vir imago et gloria Dei (1 Cor 11,7).”

Um Cristo criminoso, de Rouault, nutre ressentimento por todos |
Não há muito tempo, em um debate público sobre arte moderna, um publicista católico conferia a esse mesmo Picasso o título de profeta. Profeta, sim, dessa anti-igreja do demônio, que os seus discípulos tentam trazer para os lugares santos.
O Cardeal Constantini acrescenta: “A pintura sacra é em si mesma uma liturgia. Devemos nos convencer de que é uma verdadeira blasfêmia deformar o aspecto de Deus feito homem, desarticulá-lo, dar ao Verbo encarnado uma fisionomia sinistra, idiota e patibular.”
Ele afirma ainda: “Qualquer pessoa que visite exposições de arte [moderna], mesmo de arte sacra, nota com desgosto como tantos artistas fazem de Cristo, da Virgem, e dos Santos, tipos repugnantes, com aspecto simiesco ou apalermado, que evocam as taras dos manicômios.”
Este é o caso do Cristo proletário de José Clemente Orozco, um pintor socialista mexicano. Aqui, o Cristo revoltado ataca a Cruz com um machado e ergue o punho para declarar seu novo papel como o proletariado desperto. O fauvista francês Georges Rouault faz o mesmo tipo de ataque contra Cristo e a Virgem Maria em sua série Miserere. É o caso também daquele ridículo São Francisco na Igreja da Pampulha, obra do pintor comunista brasileiro Cândido Portinari.
Não se trata, portanto, de mera falta de conformidade com os cânones da liturgia, mas de ação diabólica contra a qual nos devemos insurgir com maior vigor do que contra as blasfêmias orais, pois estas se desfazem no ar, mas as blasfêmias proferidas com o pincel e o escalpelo permanecem. Isto afirma o eminente Purpurado que vimos citando, para acrescentar:
“Um dia se apresentou a Cristo um homem possuído por uma legião de demônios. Solicitou a cura e explicou que os demônios pediam que os enviassem a outros corpos. Cristo livrou o possesso e os demônios entraram em uma vara de porcos. Certa arte cristã se acha invadida pelo demônio e devíamos exorcizá-la. Para onde irão os demônios, não é coisa que nos preocupe. Façamos nosso o grito do Apocalipse, fechando as portas de nossos templos aos blasfemadores da arte cristã: Fore canes (Apoc. 22,15).”
Assim confirmado o que vínhamos expondo sobre o satanismo de certa arte figurativa moderna, vemos também que não menos suspeita aos olhos desse ilustre observador que se coloca no alto das Colinas Eternas é a chamada arte abstrata, contra a qual já havíamos premunido nossos leitores e cujas raízes gnósticas serpeiam pelas seitas ocultistas e teosóficas. Ele também nos adverte:

São Francisco com feições imbecis por Portinari |
“Pretendeu-se, também, levar às nossas igrejas a arte não figurativa, isto é, um jogo de linhas e de cores, um verdadeiro abstracionismo… No entanto, os fiéis não querem contemplar linhas e contrastes de cores; eles desejam rezar diante das sagradas imagens.
O Cristianismo é a religião da Encarnação. Isto representa um imenso progresso em confronto com a arte de Israel e do Islam. Jesus Cristo viveu entre nós como Homem e nós desejamos ver a sua Divina Humanidade. A arte não figurativa nos faz recordar a antiga heresia do docetismo, na qual se negava a realidade corpórea de Cristo.”
Ora, que é o docetismo senão um dos muitos disfarces do gnosticismo e do maniqueísmo, manifestado no ódio à matéria e à humanidade insuflado pelo demônio? Tendência que ressurge hoje na magia, nas falsas místicas orientais, no sincretismo religioso de fundo panteísta. Sincretismo religioso esse que, por sua vez, se transpõe para o campo estético não somente através dessa fuga representada pela arte não figurativa, que é o seu lado "construtivo," mas também na deformação e descrição repelente da criatura humana e do próprio Verbo Encarnado através do setor figurativo, seu lado "destrutivo," com o surrealismo à frente.
Do ponto de vista da arte sacra, falseia-se a representação de Nosso Divino Salvador quer por meio das deformações caricaturais de sua Humanidade, quer desprezando essa mesma Humanidade para apenas exaltar o Cristo "pneumático e glorificado." Em ambos os casos, vemos se infiltrar a gnose na arte sacra de nossos dias.
Passa, assim, a arte sacra, de "ancila nobilissima da liturgia," segundo a bela definição de Pio XII, para instrumento, no setor religioso, da revolução que procura subverter o Plano de Salvação trazido ao mundo pelo Filho de Deus, para implantar o reino das trevas.
“Dada a atualidade do tema deste artigo (19 de setembro de 2011), TIA do Brasil resolveu republicá-lo - mesmo se alguns dados são antigos - para benefício de nossos leitores.”
Publicado em Catolicismo n. 40, abril de 1954 Traduzido e adaptado pela secretaria da TIA Postado em 3 de agosto de 2026

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