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Arte e Arquitetura
Arte Moderna, Socialismo e Marxismo
Cunha Alvarenga
As exposições de arte moderna podem facilmente criar a impressão de que a maioria das obras são expressões da extravagância, loucura, estupidez ou astúcia de "artistas" que querem explorar o público ingênuo e vender suas pinturas por preços exorbitantes. Traços distorcidos, linhas inconsistentes e formas mal combinadas – quase tudo expressa a feiura, o grotesco, o desequilibrado, o monstruoso ou o desespero.

A arte moderna é uma coincidência ou tem uma agenda? |
Um crítico não pode deixar de pensar que essa arte caótica não foi criada aleatoriamente. Surge então a questão: seriam essas deformações feitas propositalmente para corromper o senso estético da sociedade, brutalizando os sentimentos e pervertendo o gosto?
Um observador mais exigente poderia ir além e questionar se há algo mais oculto por trás dessa loucura generalizada. Assim como o hermetismo e a Cabala estão por trás de algumas formas de poesia, talvez a arte moderna esteja nos conduzindo a algo novo, sendo preparado para a sociedade do futuro.
Arte abstrata e socialismo
Essa questão é respondida, em parte, ao analisarmos algumas correntes políticas revolucionárias que convergem com a arte moderna. Ao comentar a Primeira Bienal de Arte Moderna realizada em São Paulo em 1951, o crítico de arte Lins do Rego salientou o caráter político da nova arte:
“O que vemos é mais uma batalha política do que uma polêmica sobre arte. Há aqueles que querem usar a pintura para promover sua agenda política, e entraram nessa disputa entre figurativistas e abstracionistas como pretexto. Não estão interessados em cor, forma, desenho e escultura; o que querem é impor princípios menos relacionados à técnica da pintura do que a um método de incitar as massas. Seus modelos não são Da Vinci e outros mestres da arte, mas sim Engels, Marx e outros muito mais próximos de nós. Esta é a chave para entender esta discussão que é estéril em relação à arte, mas fecunda em relação à revolução social.” (1)
A crítica de Lins do Rego é pertinente ao demonstrar que a arte moderna está sendo usada por agitadores para fomentar a agenda comunista-socialista, mas não explica tudo. Implica que, se não fosse usada para fins políticos, a autêntica arte moderna seria boa. Está correto?

O Buscador do artista fascista De Chirico, uma crítica ao homem moderno e à sociedade |
Uma resposta a essa questão aparece na apologia da Segunda Bienal de Arte Moderna de São Paulo (1953), de autoria de Murillo Mendes, defensor da arte abstrata. Ele afirma:
“Precisamos perceber que o que se chama de arte abstrata é consequência de um vasto movimento não só na estética, mas também na política, na filosofia e na moral. Ele busca reformar um mundo onde esses valores estejam interligados.
Sonhamos com uma nova ordenação de valores na qual conteúdo e forma se equilibrem, onde o reino superior do espírito ressoe nas estruturas sociais e econômicas da sociedade. Dessa perspectiva, percebe-se facilmente que a arte abstrata não se opõe à realidade, mas a amplifica. Os artistas abstratos de hoje se fundem com os grandes utopistas políticos e cientistas do passado para alcançar seus ideais mútuos.” (2)
Mendes afirma claramente que os propósitos da arte abstrata se fundem com os objetivos de políticos e filósofos utópicos. Que objetivos são esses, senão o advento do socialismo no mundo?
Sir Herbert Read, anarquista inglês, poeta e adepto da arte abstrata, vai além e identifica claramente os ideais da arte abstrata com os do socialismo. Ele afirma:
“A arte abstrata é a arte do futuro, a arte de uma sociedade sem classes. É impossível prever todas as formas que essa arte assumirá. Levará muitos anos para que ela amadureça completamente. Precisamos literalmente construir uma nova sociedade com tijolos e cimento, aço e vidro, e não podemos construir essa sociedade sem artistas.
Os artistas estão aí, aguardando uma oportunidade: artistas abstratos que agora estão em uma fase de transição, aprimorando sua sensibilidade. Quando chegar o momento, estarão prontos para aplicar seus talentos à grande obra de reconstrução. Essa reconstrução não será feita para agradar a tradicionalistas românticos ou sentimentalistas literários. A construção do socialismo é realista, científica e essencialmente clássica.” (3)
Surrealismo e marxismo
Não são apenas os artistas abstratos que apoiam a revolução igualitária; antes deles, ela foi sustentada por muitos figurativistas, um tipo de artista moderno que ainda mantém uma forte referência ao mundo real. A Revolução tem muitas frentes, e podemos dizer que uma corrente da arte moderna corresponde a cada uma delas.

Uma obra do artista russo Neyasov, da escola do Realismo socialista |
Tomemos, por exemplo, o caso dos surrealistas. Os surrealistas "evoluíram" para se tornarem marxistas. Alguns deles, como o poeta francês André Breton, seguiram a linha trotskista; outros, como o escritor Louis Aragon, preferiram a linha stalinista. É importante notar que todas essas correntes servem à Revolução Socialista. Isso se aplica até mesmo a fascistas como o poeta italiano Marinetti, que se alinhou politicamente a Mussolini, e o artista Chirico, que retratou os camisas negras fascistas em suas telas.
Os surrealistas também almejavam uma sociedade sem classes. O escritor francês Yves Duplessis define seu objetivo:
“Eles não querem que o surrealismo seja uma quimera acessível apenas a alguns privilegiados. Estão tentando libertá-lo do jugo da estrutura capitalista aplicando as teorias de Karl Marx. Em 1929, surgiu o Segundo Manifesto do Surrealismo, com um claro caráter político. [...]
“Em 1930, a revista francesa A Revolução Surrealista mudou seu nome para Surrealismo a Serviço da Revolução. A mudança de título corresponde à 'evolução' do movimento, do individualismo anárquico ao seu posterior socialismo. Como a libertação do homem é a primeira condição para a libertação da mente, eles perceberam que isso pode ser alcançado por meio da Revolução Proletária.” (4)
Arte concreta e socialismo
Os gurus da arte moderna não concordam sobre qual será a arte do futuro. Podemos encontrar neste panorama aqueles que romperam com a Arte Abstrata.
Por exemplo, o Dr. Romero Brest, influente crítico de arte uruguaio e diretor do Museu Nacional de Belas Artes, acreditava que o futuro pertencia não à Arte Abstrata, mas à Arte Concreta, uma forma de abstracionismo que busca expressar a realidade em si mesma. Ele afirma que linhas e cores são concretas por si mesmas; daí o nome dessa escola. Brest argumenta:
“Os seguidores da arte abstrata são aqueles cujas obras criativas estão mais intimamente ligadas ao aspecto caótico da realidade moderna. O abstracionismo é o presente. A Arte Concreta é uma profecia para o futuro. Os seguidores da Arte Concreta tentam extrair da realidade as ideias e formas que lhes permitam anunciar uma nova visão de mundo.”

A arte concreta reduz a realidade à forma e à cor - uma obra de Günter Fruhtrunk |
“Alguém poderia nos perguntar: Por que tão poucos conhecem essa arte, já que ela parte da realidade? É porque suas criações não se baseiam nas superficialidades da vida, mas em princípios que, embora ainda expressos por métodos ultrapassados, são fortes o suficiente, acreditamos, para transformar os próprios fundamentos do comportamento humano no futuro. Essa realidade, porém, está apenas começando a emergir. Sua construção é composta de símbolos e sua atitude é essencialmente profética.
Os seguidores da Arte Concreta estão um passo à frente da realidade, o que é normal em épocas de iniciação. Isso explica suas hesitações e contradições. Exige também do espectador uma fé semelhante no destino que só pode ser vislumbrado.
A Arte Concreta coincide com o Neorrealismo, também chamado de Realismo Socialista, porque ordena o rico conteúdo subjetivo da realidade em novas formas objetivas.” (5)
Assim, encontramos divergências de opinião quanto às formas de arte que prevalecerão no futuro, mas todas as correntes concordam que, em relação ao seu caráter e consequências sociopolíticas, o futuro pertence ao Socialismo.
Arte e literatura a serviço da Revolução
A estreita relação da Arte Moderna com a Revolução Socialista não é surpreendente. Se a literatura e a arte sempre desempenharam um papel fundamental em épocas passadas, por que não continuariam a fazê-lo nesta fase final da Revolução?

A arte renascentista salienta a nudez masculina - Adão na Capela Sistina |
Durante o Renascimento, a literatura e a arte humanistas devastaram a Cristandade. Foi na ordem estética e intelectual que Deus foi negado pela primeira vez, as necessidades espirituais da alma foram abandonadas e tudo se centrou no homem, principalmente em seu corpo. Não havia mais Deus, apenas o homem. Não havia mais fé, apenas a razão. Não havia mais alma, apenas o corpo.
Essa revolução completa nas tendências do homem medieval pavimentou o caminho para a revolução das ideias. O humanismo e o Renascimento prepararam o terreno para a Revolução Protestante na esfera religiosa, com suas enormes consequências sociopolíticas. Assim, a arte e a filosofia são normalmente associadas às suas conquistas político-sociais.
Analogamente, se analisarmos cuidadosamente esses movimentos estéticos, descobriremos que eles, em grande parte, fomentaram o avanço revolucionário. Victor Hugo, por exemplo, costumava dizer: "O Romantismo é o Liberalismo na literatura.” Ele sabia muito bem do que estava falando, pois era uma das estrelas do Romantismo.
A maneira correta de entender a arte é buscar suas conexões com os movimentos sociopolíticos da época e observar como eles serviram ao avanço da Revolução. Fazendo isso, podemos compreender a grande malícia das diversas correntes.
1. José Lins do Rego, "A Semana Traída," Diário de São Paulo, 22 de abril de 1952
2. Murilo Mendes, Sugestoes da Bienal, 2 de dezembro de 1951
3. Herbert Read, A Política do Apolítico, pp. 130-131.
4. Yves Duplessis, Le Surréalism, p. 111
5. J. Romero Brest, entrevista na Folha da Manhã, São Paulo, 14 de dezembro de 1952.
“Dada a atualidade do tema deste artigo (22 de julho de 2011), TIA do Brasil resolveu republicá-lo - mesmo se alguns dados são antigos - para benefício de nossos leitores.”
Publicado em Catolicismo n. 30, junho de 1953 Traduzido e adaptado pela secretaria da TIA Postado em 31 de agosto de 2026

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